A depressão vem em marés: às vezes, com bom tratamento e sorte, ela baixa, revelando mais da areia e ampliando o espaço para caminhar; já em outros momentos, a água invade a praia, o calçadão e a avenida beira-mar. Nestes momentos, a atenção é fundamental para evitar que se torne um tsunami.
Há alguns meses, decidi retornar à análise depois de anos adiando qualquer tipo de tratamento que não fosse medicamentoso - e mesmo este era mantido com dosagens de muito tempo atrás, sem qualquer supervisão e nas quais persisti através de receitas obtidas na camaradagem. Assim, quando minha psiquiatra/analista alterou as doses e percebi uma mudança significativa, entrei em uma breve fase de quase euforia ao me notar com mais energia e uma produtividade acentuada. Eu quase já não me lembrava de como era a sensação de operar com a mente desembaçada.
Desde que retornei a BH depois de quase 45 dias de viagem, porém, venho notando um retorno da minha velha inimiga. Em parte, reconheço, isto se deve ao retorno à rotina após dois festivais (Cannes e Curitiba), passeios lindíssimos (Paris, Versalhes, Lyon e Morro Saint-Michel), encontros com amigos queridos e o carinho de leitores no Paraná. Além disso, houve também a despedida da casa em que cresci, agora vendida e prestes a ser demolida, e algumas questões de saúde que me obrigaram a fazer alguns exames esta semana, incluindo uma ressonância magnética de crânio, com direito a contraste e tudo mais. (Eu adoraria poder fazer a velha piadinha de “não encontraram nada na minha cabeça”, mas ainda não recebi o laudo. Fica adiada para a próxima semana, portanto.)
Há, assim, motivos de sobra para a subida da maré enquanto me vejo preso no litoral por assim ter acordado. (A ambiguidade de sentidos é intencional; quero ver um texto produzido por IA ser capaz de criá-la!)
Discutirei estas questões na sessão desta semana, mas - seguindo meu antigo propósito de demonstrar como falar sobre depressão não deve ser tabu - senti o impulso de adiantá-las aqui.
Um longo, detalhado e excepcional artigo publicado no New Yorker no meio de junho (só li hoje) relata como Trump e seus asseclas começaram a discutir a tomada da Groelândia ainda em seu primeiro governo. No meio de todas as insanidades e absurdos típicos da extrema-direita, a pérola:
“(…) um parlamentar republicano da Georgia apresentou um projeto de lei para alterar o nome da Groelândia (Greenland; ou “terra verde” em inglês) em todos os documentos federais e mapas para ‘Red,White and Blueland’”.
Não há grupo mais imbecil do que trumpistas e bolsonaristas.
Mas há aqueles que empatam: a “influenciadora” Viih Tube e seu marido Eliezer tiveram a brilhante ideia de criar um reality show envolvendo os funcionários de sua casa (ou melhor: “colaboradores”) e que incluem cozinheira, babás, motoristas, jardineiros e outros tantos profissionais necessários para que a família viva sua existência de luxo e inutilidade. A ideia do tal reality? Levar os funcionários a uma disputa que tem, como prêmio, folgas, 20 mil reais (um valor insignificante perto do que os patrões ganhariam explorando estas humilhações em seus vídeos) e por aí afora.
É a visão lucianohuckista de “assistência social”: dança pra mim que te dou um presente.
Felizmente, depois da repercussão negativa e da iniciativa da deputada Ediane Maria Nascimento (PSOL-SP) de protocolar uma representação no Ministério Público do Trabalho de São Paulo, o programa foi cancelado.
Mas é impossível ignorar a desumanidade destas criaturas.



Não são fáceis essas ressacas que a depressão nos causa, professor! Espero que fique bem, o mais rápido e longamente possível!
Desejo que a maré fique favorável o quanto antes, Pablo.